SOCIEDADES EDUCATIVAS

Géssica Gaspar

Introdução

As sociedades educativas apresentam-se como grupos sociais diversos que buscam transformar comportamentos através da educação. Os espaços em que a educação ocorre extrapolam os muros escolares ou locais institucionais físicos, pois além do meio digital também devemos considerar a educação que se dá através do meio em que o sujeito está inserido, tal como urbano e a natureza por exemplo. Falar em sociedades educativas é deslocar o olhar da educação como tarefa exclusiva da escola para compreendê-la como um processo social ampliado, difuso e permanentemente em disputa. Trata-se de reconhecer que aprendemos e nos formamos não apenas nas salas de aula, mas nos territórios que habitamos, nas relações que estabelecemos, nas tecnologias que mediamos, nas crises que enfrentamos e nas formas como organizamos a vida coletiva.

Em um contexto marcado por desigualdades socioambientais, colapsos ecológicos, aceleração tecnológica e disputas de projetos civilizatórios, pensar sociedades educativas torna-se mais do que um exercício conceitual: é uma necessidade política.

Antes de avançar na discussão, é fundamental situar o termo sociedades educativas a partir de três campos onde ele emerge ou é mobilizado teoricamente: (1) a educação ao longo da vida, (2) a pedagogia social e a educação não formal e (3) matriz político-crítica .

Sociedades educativas: três matrizes conceituais

1. Educação ao longo da vida

A primeira matriz está vinculada à noção de educação ao longo da vida, difundida especialmente por organismos internacionais como a UNESCO. Nos relatórios Aprender a ser (FAURE et al., 1972) e Educação: um tesouro a descobrir (DELORS et al., 1996), a educação é compreendida como um processo contínuo, que extrapola o sistema escolar e se realiza em múltiplos espaços sociais. Nesse horizonte, a sociedade passa a ser entendida como um ecossistema educativo, no qual diferentes instituições, territórios e práticas culturais participam da formação dos sujeitos.

2. Pedagogia social e educação não-formal

A segunda matriz emerge do campo da educação não-formal e da pedagogia social. Para Gohn (2006), a educação não-formal se estrutura a partir das problematizações cotidianas da sociedade, respondendo a necessidades, conflitos e demandas reais dos grupos sociais. Fischer (2009) reforça que, especialmente no campo da educação ambiental, os espaços não-escolares constituem territórios privilegiados de produção de conhecimento, diálogo e conscientização crítica, ampliando as possibilidades formativas para além do currículo escolar. Nessa perspectiva, falar em sociedades educativas significa reconhecer a centralidade dos territórios, das práticas comunitárias e das experiências sociais como dimensões constitutivas dos processos educativos.

3. Matriz político-crítica das sociedades educativas

A terceira matriz das sociedades educativas afirma que a educação não é neutra, mas atravessada por interesses, relações de poder e projetos de sociedade em disputa, exigindo uma leitura crítica sobre a quem servem os processos formativos e quais sujeitos são incluídos ou excluídos. Autores como Biesta (2013) alertam para os riscos da redução da educação à aprendizagem contínua e instrumental, enquanto Laval e Dardot (2016) evidenciam como, sob a racionalidade neoliberal, a educação pode operar como mecanismo de responsabilização individual, especialmente em contextos marcados pela ausência do Estado, de políticas públicas e de garantias sociais. Em diálogo com essas críticas, Tiriba (2017) sustenta que sociedades educativas comprometidas com a vida, o cuidado e a alegria devem orientar-se por uma ética relacional e coletiva, reafirmando o caráter político da educação e a necessidade de interrogar permanentemente seus contextos, interesses e efeitos sobre a vida social.

Sociedades educativas e crise socioambiental

Diante da crise socioambiental contemporânea, pensar sociedades educativas implica reconhecer que a escola, isoladamente, não dá conta de enfrentar problemas como mudanças climáticas, racismo ambiental, desigual distribuição de riscos e esgotamento dos bens comuns.

A educação ambiental crítica aponta que os processos formativos precisam estar enraizados nos territórios, nas experiências concretas e nos conflitos reais vividos pelas populações. Assim, sociedades educativas são aquelas capazes de:

- produzir leitura crítica da realidade;

- valorizar saberes locais e tradicionais;

- articular ciência, política e cotidiano;

- promover formas de vida sustentáveis e solidárias. 

 

Sociedades educativas, educação não-formal e Educação Ambiental

A compreensão de sociedades educativas encontra forte sustentação no campo da educação não formal, entendida como aquela que visa ao conhecimento, à promoção de debates, à contextualização da realidade e a aprendizagens que ocorrem fora do currículo escolar, mas profundamente inseridas na vida social. Conforme aponta Gohn (2006), as temáticas trabalhadas nesses espaços emergem das problematizações cotidianas da sociedade, de suas necessidades, obstáculos, equívocos e conflitos, constituindo-se como respostas vivas às demandas dos grupos sociais.

Nesse sentido, a educação em espaços não-escolares não se coloca em oposição à escola, mas como possibilidade de ampliação dos processos educativos, especialmente diante das limitações do currículo formal em abarcar a complexidade dos problemas contemporâneos.

A Educação Ambiental insere-se aqui como temática central da contemporaneidade. Em um cenário marcado pela banalização das atrocidades ambientais e pela naturalização das desigualdades socioambientais, a atuação da Educação Ambiental em espaços não escolares torna-se uma estratégia essencial para a promoção da consciência socioambiental, de práticas sustentáveis e de experiências formativas enraizadas no território.

Experiências educativas desenvolvidas em espaços não escolares ilustram como as sociedades educativas se materializam no cotidiano. Um exemplo é a Universidade Livre do Meio Ambiente (UNILIVRE), que atua por meio de visitas guiadas, cursos e atividades educativas voltadas à problematização das questões ambientais, articulando vivência territorial e conhecimento científico.(Disponível em: link oficial). Tal perspectiva reafirma que o acesso ao conhecimento científico ambiental é um direito, pois aprender a cuidar de si, dos outros e da natureza é parte constitutiva da condição humana (TIRIBA, 2017).

Assim, a Educação Ambiental deve ser compreendida em um âmbito mais amplo, não restrito à ideia de “meio ambiente” como natureza isolada, mas como uma educação para a cidadania. Conforme Jacobi (2003), trata-se de um fator determinante para a formação do sujeito enquanto cidadão crítico, capaz de intervir na realidade social e ambiental.

Ao relacionar os referenciais da educação não formal com práticas concretas em espaços não escolares, observa-se que tais experiências demandam profissionais qualificados, com formação pedagógica capaz de articular objetivos, públicos e estratégias educativas diversas. Contreras e Filho (2011) ressaltam que diferentes contextos exigem múltiplos saberes pedagógicos e administrativos, justificando a presença e a importância do pedagogo também em intervenções educativas fora do espaço escolar.

Dessa forma, sociedades educativas são aquelas que reconhecem e valorizam a pluralidade dos espaços formativos, articulando escola, território, políticas públicas, instituições e sujeitos na construção de processos educativos comprometidos com a justiça social, ambiental e democrática.


Considerações finais

Pensar sociedades educativas é assumir que a educação é um campo de disputa e que os processos formativos atravessam toda a vida social. Mais do que uma sociedade que ensina, trata-se de uma sociedade que aprende com suas contradições, conflitos e possibilidades de transformação.

Em tempos de crise civilizatória, sociedades educativas só fazem sentido se estiverem comprometidas com a construção de futuros socialmente justos, ambientalmente sustentáveis e eticamente responsáveis.

Não se trata de educar mais, mas de educar diferente e, sobretudo, educar juntos.


Referências

BIESTA, G. The Beautiful Risk of Education. Boulder: Paradigm Publishers, 2013.

CONTRERAS, Humberto Silvano Herrera; FILHO, Valderes Souza. A atuação do pedagogo no terceiro setor: desafios na formação. In: EDUCERE, 2011. Disponível em: http://www.educere.bruc.com.br/CD2011/pdf/4488_3754.pdf.

DELORS, J. et al. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez; UNESCO, 1996.

FAURE, E. et al. Aprender a ser. São Paulo: Difusão Europeia do Livro; UNESCO, 1972.

FISCHER, Nilton Bueno. Educação não escolar de adultos e educação ambiental: um balanço da produção de conhecimentos. Revista Brasileira de Educação, v.14, n.41, p.370–385, 2009.

GOHN, Maria da Glória. Educação não formal e cultura política. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, v.14, n.50, p.27–38, 2006.

JACOBI, Pedro. Desenvolvimento, meio ambiente e práticas educativas. Cadernos de Pesquisa, n.118, p.189–205, 2003.

LAVAL, C.; DARDOT, P. A nova razão do mundo. São Paulo: Boitempo, 2016.

TRILLA, J. A educação fora da escola. Porto Alegre: Artmed, 2008.

TIRIBA, Léa. Educação infantil como direito e alegria. Laplage em Revista, v.3, n.1, p.72–86, 2017.